Brasileiros ajudam Moçambique a se reconstruir após ciclone Idai

Seis meses após passagem do Idai, milhares ainda precisam de ajuda em Moçambique

Antonio Silva / EPA-Lusa 

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INTERNACIONAL

Giovanna Orlando

Voluntários que estiveram na cidade de Beira logo após tempestade contam que cenário era chocante; milhares ainda precisam de ajuda

 

Casas e escolas destelhadas, o Hospital Central da Beira lotado de feridos, pessoas desaparecidas e fome. Há seis meses, logo após a passagem do ciclone Idai por Moçambique, o cenário chocou Júlio César Alves Machado e Juliana Freitas, dois dos vários brasileiros que se envolveram com a reconstrução do país africano.

“Era um cenário de filme. O aeroporto é pequeno e recebe poucos voos por dia. Mas ali tinham várias organizações do mundo todo acampadas”, relembra Júlio César.

Ele, coordenador da organização Missão África, e Juliana, pediatra voluntária, desceram no Aeroporto Internacional da Beira assim que foi reaberto em março, dias depois da passagem do ciclone. Desde 2012, a ONG organiza viagens de voluntários para o país africano, mas os brasileiros não esperavam encontrar o local já frágil tão destruído.

Após o Idai, o Missão África tem enviado grupos de cerca de 20 pessoas trimestralmente para Moçambique. As equipes contam com médicos, pediatras, dentistas, professores e voluntários, focados em ajudar as crianças de Beira e de Dondo, uma província próxima.

‘Emocionalmente difícil’

Na primeira viagem depois do Idai, apenas seis pessoas viajaram. “A primeira equipe tinha médicos e enfermeiros, que foram auxiliar o Hospital de Beira com atendimento direcionado. O resto do pessoal ajudou na doação de alimentos, água, velas e purificadores de água”, conta.

Os voluntários compraram 30 toneladas de comida em Maputo, capital do país, que não foi atingido pelo ciclone, e levaram para Beira. Em maio, uma equipe completa viajou para o país para ajudar.

Participando do projeto desde o início, a pediatra Juliana disse que a situação do país era “emocionalmente difícil”.

“Os agricultores perderam tudo, as famílias perderam membros, a fome aguda e muitas pessoas desesperadas por atendimento e socorro”, diz Juliana.

Ela destaca que a presença do voluntariado internacional foi essencial para que a situação não fosse ainda pior. “Mesmo com ajuda humanitária é difícil. O governo de Moçambique tem muitos problemas, eles também são um país corrupto. Existe uma dificuldade de gestão e os recursos são muito limitados”, explica.

Reconstrução lenta após o ciclone

ONG Missão África atua nas áreas da saúde e educação

ONG Missão África atua nas áreas da saúde e educação

Divulgação / Missão África

A última viagem do Missão África foi em agosto, quase cinco meses depois do Idai. O grupo de voluntários encontrou Beira se reerguendo lentamente, uma vez que os investimentos são caros e alguns estabelecimentos comerciais não terem a chance de reabrir.

“Onde houve ingestão de recursos, as coisas melhoraram rápido”, analisa Juliana. “Nas comunidades menores, as coisas se reorganizaram de forma inferior, mais devagar”.

Escolas ainda precisam de reformas, o Hospital Central ainda não tem centro cirúrgico e precisa de recursos, famílias perderam familiares para o Ciclone e para a cólera e a fome ainda não foi eliminada.

“[Depois do furacão] vem o desespero, a necessidade, a fome e a miséria. As pessoas são capazes de brigar por comida”, conta Júlio.

Ajuda internacional

Dias depois da passagem do Ciclone Idai, centenas de ONGS e diversos países se colocaram à disposição do governo moçambicano para ajudar na reconstrução do país, busca pelos desaparecidos, criação de abrigos seguros, auxílio médico e distribuição de alimentos.

Para Júlio César, a ajuda internacional é “mais que essencial”. “A ajuda é o que dá suporte a essas pessoas. Se não tivesse, elas não teriam chance de sobreviver”, explica.

Mesmo com a ajuda internacional, o país ainda vai precisar de recursos e planejamento a longo prazo. Juliana ressalta que a principal necessidade agora é socorro alimentar. “Eu acho difícil a comunidade internacional se movimentar para isso”, diz.

O Missão África

Fundado em Uberlândia, em Minas Gerais, em 2011, o Missão África ajuda crianças moçambicanas e suas famílias. Focando na educação e saúde dos jovens, o projeto conta com a ajuda de médicos, pediatras, dentistas e professores durante as viagens.

“Nós identificamos que era necessário trabalhar com as crianças, devido o risco e a vulnerabilidade social muito grande. As famílias tem muitos filhos, pelo menos seis, a qualidade de vida é muito ruim e a mortalidade infantil é muito alta”, explica Juliana.

O projeto fornece educação a crianças com menos de 6 anos, idade em que elas podem se matricular nas escolas, e ajuda também na nutrição dos pequenos.
Para ajudar, os interessados podem apadrinhar alguma criança inscrita no projeto, que com uma doação mensal consegue ter acesso a escola durante todo o ano.

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