Educação de qualidade

Educação de qualidade

Marcos Alegre


Eu tenho deixado um pouco de lado o tema educação. Nestes
últimos tempos, lendo e ouvindo o que se diz sobre este rico, mas
tão
empobrecido tema que me deixa sem muito ânimo para tratar de
qualquer assunto
que vise a educação. Lembra-se o dileto leitor que até o nosso
ex-reitor
professor Herman disse na mídia: “que tinha vergonha da educação
em S. Paulo.”
Reportagem do ano passado na Folha de S. Paulo: “Um trabalhador
americano
produz como 4 brasileiros.”  O
texto
explica as possíveis causas; baixo nível educacional, falta de
qualificação de
mão de obra e pouco investimento em tecnologia e inovação explicam
a diferença.
Brasileiro estuda em média sete anos já o americano estuda em
média 12 a 14
anos. Em certo trecho a reportagem afirma que entre as melhores
escolas no
ensino médio apenas 8% são públicas. E a nossa presidente, ora
afastada,
colocou como seu slogan: “Brasil Pátria Educadora”. O processo
político
brasileiro chega a ser engraçado ou desgraçado, porque a
presidente logo cortou
metade da verba destinada à educação. E assim vamos indo na
contramão dos
países mais adiantados do mundo e dentro da nossa lógica: Um
passinho para a
frente e dois passos grandes para traz.

Considerando esses fatos decidi continuar o tema a partir
de um livro que este autor produziu e foi publicado pela UNESP em
2002 com o titulo
Estrutura da População Brasileira. Vale verificar que entre o que
vimos agora e
o que consta no livro há um espaço tempo de quase vinte anos. É
como se fosse
pequeno trecho da história da educação. Vou pinçar apenas alguns
tópicos do
tema Educação e que inicia-se assim: Números divulgados pela
Situação Mundial
da Infância, órgão da UNESCO, comentados por Mariana Scalzo, em
reportagem
publicada no jornal “Folha de S. Paulo” em 1995 indicam que, a
educação brasileira continua no 4° mundo. Salienta a autora
baseada nos dados
divulgados que a educação ainda é um grande problema mundial
porque muitos
países ‑
o Brasil entre eles ‑ não resolveram questões básicas
como o analfabetismo. A
África, no seu conjunto, concentra os mais baixos índices de
alfabetização. Já
na Europa, quase toda população é alfabetizada. Conclui que, pelos
dados, o
Brasil estaria muito mais próximo da África que da Europa e que
falta maior
apoio do governo e recursos efetivos para a educação. Em
contrapartida,
apresenta alguns dados que demonstram as desigualdades regionais:
Em S. Paulo,
na época, 4% dos estudantes de 13 anos já usavam computador para
fazer suas
tarefas de casa; 36% das escolas tinham laboratórios.

O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb)
do Ministério da Educação apresentou, há pouco, resultados do
desempenho das
escolas de ensino básico admitindo que a situação do ensino, no
país estava
longe de ser satisfatória, chegando a julgar “trágica a situação
do 2°
grau. Essa avaliação vem demonstrar a grave deterioração da
qualidade do ensino
em todo o país atingindo também escolas privadas, tidas como
melhores. Alguns
especialistas reclamam que, para o Brasil, há muito tempo a
educação teria
deixado de ser prioridade. O dileto leitor deve levar em conta que
estou
escrevendo a situação da educação no Brasil por volta do ano 2000.

Apesar de tudo, em certos setores, a situação no Brasil
melhorou bastante: o analfabetismo por exemplo, caiu de 20,2% para
16% em cinco
anos. O número de matrículas em todos os graus teve grande
incremento. Em
termos quantitativos o país vem vencendo a batalha. No ano de 2000
mais de 96% das
crianças estavam frequentando aulas. Mas a maioria das escolas,
sobretudo, nas
áreas mais carentes, continua ruim. O nível dos docentes ainda é
baixo. A
formação do professor melhorou pouco lembrando que a maioria, ou
não tem
formação adequada ou, quando tem, pelo menos legalmente, deixa a
desejar quanto
à qualidade, pois muitos professores, são egressos de faculdades
de baixo
padrão.

Lembrar que o governo federal tem estimulado, nas últimas
décadas, a criação de faculdades particulares. Muitas foram
criadas e
instaladas de imediato as licenciaturas visando o mercado certo e
seguro que é
o ensino básico em expansão no país. A maioria dessas faculdades
funciona
precariamente, seja por falta de pessoal qualificado, seja pelo
próprio descaso
das mantenedoras somente preocupadas com o lucro. A educação
transformou‑se
em
negócio altamente lucrativo e fez a fortuna dos proprietários,
pretensos
educadores. Este foi, também, um dos grandes equívocos do governo
central…
Não propriamente a criação da escola privada. Ela é necessária já
que o Estado
não teria condições de arcar sozinho com a manutenção da
universidade e formar
elementos para o mercado emergente. Deve-se levar em conta também
a necessidade
da existência de filosofias diferentes de enfoque do ensino e de
projeto
pedagógico não apenas o estatal. Milhares de jovens foram e
continuam a ser
enganados com grande prejuízo para a sociedade. Apesar de tudo, há
de pensar no
futuro. A formação do professor, seu aperfeiçoamento, inclusive
levando-se em
conta as perspectivas tecnológicas, precisa voltar a ser
preocupação séria da
sociedade. O salário do professor deve ser compatível com a
importância da
profissão. O magistério tem de ser encarado como vocação e não
pode mais ser
considerado refúgio e última alternativa para aqueles que não
conseguem outra
solução. Números recentes indicam que o Brasil gasta cerca de 5%
Produto
Interno Bruto (PIB) com a educação enquanto países como os Estados
Unidos
aplicam 13,8%, o México 13,7%, Portugal, 11,2%. Não é por acaso
que tais países
ostentem também, as maiores taxas de alfabetização e melhor
qualidade de
ensino. Se Deus assim o permitir volto ao tema no próximo artigo.

Mas não posso deixar de dizer que quem vive mais só perde
os amigos. E desta vez são dois: O Prof. Dr. José Arana Varela e o
grande
mestre Prof. Dr. Willan Saad Hossne.


Marcos Alegre, professor emérito da Faculdade de
Ciências e Tecnologia – FCT/UNESP e ex-diretor dessa mesma
instituição.
Contato: maralegre@ig.com.br