Joice Hasselmann dispara: ”Bolsonaro age como vereador”

Após deixar a liderança do governo, deputada do PSL critica a postura mercurial do presidente e o núcleo duro do Planalto

Rompida com Jair Bolsonaro há cerca de um mês, a deputada de primeiro mandato Joice Hasselmann (PSL-SP) e ex-líder do governo no Congresso, agora, descreve o presidente da República que tanto defendeu como alguém que não está à altura do cargo que ocupa. “Ele é o homem mais importante do país. Mas, às vezes, tem agido como se fosse um vereador. Quando pega o telefone para dizer ao deputado: ‘vem aqui que vou te dar um carguinho para você votar no meu filho na lista de líderes’. Caramba! É para negociar o cargo de líder de um partido, uma coisa pequena quando se compara com um presidente da República eleito com 57 milhões de votos”.

Alvo de ataques nas redes sociais após a família presidencial levar a público brigas que antes ficavam restritas aos bastidores do primeiro escalão, ela tem o também deputado Eduardo Bolsonaro (SP), que ainda não pôde deixar o PSL para não perder o mandato, como um dos principais desafetos. “Nunca tive carinho ou amizade pelo Eduardo, nunca houve essa aproximação. Prezo pelo diálogo e descobri muito cedo que ele não cumpre a palavra. Não consigo respeitar alguém que não cumpre a palavra”.

Às vésperas do fim do ano, Joice não faz mistério sobre sua meta para 2020 — quer comandar a principal cidade do país e se coloca como pré-candidata do PSL à prefeitura da capital paulista. Mulher mais bem votada de São Paulo, diz ter sofrido provocações machistas e trabalha para se livrar do estigma de elitista. “Quero vencer a eleição com a ajuda de todos. Não vou ser a prefeita de elite, aquela que fica preocupada com as mazelas da classe A. A prefeita, ou pensa no município como um todo, ou não está preparada”.

Com as articulações do Aliança Pelo Brasil, o PSL é quem mais perde aliados. A senhora fica no partido, mas como vai ser daqui pra frente?
Para nós, o PSL é dividido em Nutella e raiz. Os Nutella não concordam com divergência, não gostam muito do processo democrático, mas gostam da imposição. O grupo que é PSL de verdade optou pela democracia. Não pode haver uma ditadura interna dentro do partido, que é o que se tentou fazer, inclusive com a troca do líder (referindo-se à retirada do Delegado Waldir (GO), que foi substituído por Eduardo Bolsonaro, eleito por São Paulo). Para o PSL raiz, seria uma bênção que alguns saíssem. Há pessoas fazendo campanha para outro partido dentro do PSL. O próprio líder, o deputado Eduardo Bolsonaro, faz campanha. Isso é uma indignidade. Se está descontente, vá embora. Dizem que o problema é a regra eleitoral e, sim, ela existe porque o país é uma democracia. Senão, vira ditadura. Não há que se falar em “onda Bolsonaro”. Eu tive mais de um milhão de votos. Os outros também tiveram seus votos. Nós ajudamos o presidente a se eleger.

Ficou algum ressentimento depois das mudanças? A senhora saiu da liderança do governo, houve desavenças com o Eduardo Bolsonaro…
A gente só tem ressentimento com quem tem sentimento. Nunca tive carinho ou amizade pelo Eduardo. Prezo pelo diálogo e descobri muito cedo que ele não cumpre a palavra. Não consigo respeitar alguém que não cumpre a palavra. Aliás, essa questão de não cumprir palavra é uma marca deles (referindo-se aos filhos de Bolsonaro).

Isso recai sobre o presidente?

Com o presidente eu não fiquei ressentida, fiquei triste. Ele afastou todas as pessoas que realmente gostavam dele, quem trabalhava pelo Brasil de verdade, pessoas que largaram suas vidas para fazer campanhas para ele. Todo mundo que se dedicou foi limado. Especialmente os que tinham capacidade de discordar. Não nasci Bolsonaro. Quando comecei a apoiar essa ideia, ele foi à minha casa, pediu para eu entrar no partido dele. Não existe uma dependência, não tenho cordão umbilical com ele.

O posicionamento de olhar para frente envolve a disputa pela prefeitura de São Paulo?
O projeto inicial do partido é “Joice prefeita de São Paulo”. Mas há uma série de pleitos legítimos para fazer prefeitos, governadores e, quiçá, um presidente da República em 2022. A gente precisa entregar ao Brasil o que prometemos: um presidente liberal, com diálogo, que ouvisse todos, ainda que discorde de alguns; e não foi bem isso que a gente entregou. Houve um curto-circuito do que prometemos e do que entregamos. Espero que a coisa se corrija nos próximos três anos.

O PSL tem mais dinheiro em caixa. Vai receber R$ 1 bilhão de Fundo Partidário e Fundo Eleitoral. Na eleição passada, vocês tinham o orçamento mais enxuto…
Foi enxutíssimo. Minha campanha e a do Major Olímpio (senador do PSL de São Paulo) foram as mais baratas do Brasil. Pouco dinheiro, coisa de centavinho. Pensava: gente, se eu com R$ 100 mil faço uma campanha forte, imagina esse povo com R$ 2 milhões, R$ 3 milhões. Gastei R$ 100 mil do Fundo Partidário, mas teve gente que doou trabalho e eu coloquei um pouquinho de dinheiro, mas nem precisei usar.

A senhora acha que o PSL se desvirtuou? Temos as candidaturas laranja, o presidente da República deixando o partido, confusões pelos cargos…
É uma estupidez dividir o único partido 100% fechado com o presidente. E quem dividiu? O presidente e o filho. O Planalto tinha 53 votos cativos na Câmara. Se o presidente falasse que vermelho era azul, todos ali votariam a favor. Por uma vaidade, porque o menino não ia conseguir uma embaixada (Eduardo Bolsonaro foi indicado pelo pai como embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Mas a iniciativa não foi adiante), eles conseguiram rachar o partido. Quantos políticos entrariam numa guerra para ter 53 deputados alinhados? A única base que o governo tinha acabou. Mas o PSL não se desvirtuou. Quem se desvirtuou foi o PSL Nutella, que está de saída rumo ao partido da fakelândia.

Insisto nas candidaturas laranjas. Isso recai sobre o partido?
Em mim, não recai absolutamente nada. Sou a prova viva de que a mulher pode fazer um grande volume de votos. Não acredito na teoria de candidaturas laranjas. Mas supondo que realmente isso tenha existido, precisamos perguntar quem foi a laranja, de onde saiu o dinheiro e a quem beneficiou. Siga o rastro do dinheiro. A investigação precisa acontecer e, se aconteceu, as pessoas têm de ser punidas. Acho incoerente o Marcelo Álvaro (ministro do Turismo) ser denunciado por isso e permanecer ministro. É incoerente o presidente falar desse assunto (em ataques ao PSL depois das brigas internas no partido) quando o denunciado é ministro dele. Essa conta não fecha. O PSL vai mostrar que sem a turma da tarja-preta, que queria criar uma ditadura interna, será o partido mais transparente do Brasil.

A senhora fala de tarja-preta, ditadura, em um contexto que envolve o presidente e seus filhos. Bolsonaro tem atitudes autoritárias?
Muitas. Esse é um ponto de conflito entre nós. Sempre tive a liberdade de falar tudo o que eu queria com o presidente. Conheci o Jair quando ele ia às manifestações em que a gente lotava ruas em São Paulo, contra a Dilma, e ele chegava de chinelão Rider e bermuda. Ficava lá embaixo e ninguém sabia quem ele era. Eu tinha a liberdade de dizer: está errado. Cheguei a dizer que, se ele continuasse seguindo esse caminho, ele acabaria como o Fernando Collor (ex-presidente da República cujo fim do mandato ocorreu após um processo de impeachment). Isso foi gravado. Falei: cara, me ajuda a te ajudar. E isso no segundo mês de governo, quando começou aquela confusão do Gustavo Bebianno (ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República). Mandei uma mensagem dizendo: se você não sabe fazer essas coisas, deixa que eu faço. Nunca escondi do presidente que ele tem atitudes impróprias. Às vezes o presidente mandava piadinhas de outros políticos, memes, coisas que eu achava de mau gosto. Eu respondia: amigo, vamos lá, cresce. Chegou ao ponto de a gente se bloquear no WhatsApp. Ele é muito turrão.

Alguém incentiva esse posicionamento?
Todo mundo ao redor dele, dos filhos aos assessores. Especialmente os assessores colocados pelos filhos, o que é chamado por aí de gabinete do ódio. São pessoas com acesso ao presidente que despacham diretamente com ele. Acompanham reuniões, ficam ali o tempo todo sugerindo informações, disparam coisas na lista de transmissão do presidente, às vezes atacam políticos. O presidente tem uma mania de distorcer informações e fica zangado quando alguém pensa diferente.

Sobre listas de transmissão, ataques a adversários e fake news, há quem culpe o partido…
A campanha do presidente teve dois núcleos para tratar das redes sociais. Um, feito com as redes do PSL com a ajuda de quem tinha perfis com muitos seguidores. O outro, coordenado pelo Carlos Bolsonaro (vereador do Rio de Janeiro), ninguém chegava perto. O Carlos tinha senhas, comandava o núcleo e conversava com as pessoas envolvidas lá.

Os ataques do partido e dos filhos do presidente alcançaram a senhora. Como isso a afetou?
Havia um desejo enorme de tentar me agredir, mas ninguém conseguia, porque eu entregava tudo o que o governo precisava. A estratégia adotada foi tentar, depois da campanha, colar em mim a pecha de que eu trocaria o Bolsonaro pelo Doria. Mas fiz a campanha do Doria autorizada pelo Bolsonaro. “Entre de cabeça”, ele disse, aproveitando para xingar o senador (Major Olímpio), que estava apoiando o adversário do Doria, o Márcio França (PSB). O presidente da República, que ainda era candidato, me autorizou. Querem queimar todo mundo que pode ser uma pedra no sapato dele. O Sérgio Moro (ministro da Justiça) é um exemplo. A população gostaria de vê-lo presidente e, agora, ele está deixado de lado. O Doria falou “quem sabe, um dia”, e tornou-se inimigo mortal do clã. Criou-se uma narrativa que foi se intensificando. Quando aconteceu de eu deixar a liderança do governo, abriram a porteira: espalharam um dossiê falso, colocaram minha cabeça em uma foto com o corpo de uma prostituta. Retribuíram tudo o que eu fiz pelo governo desse jeito. O que me assombra é o presidente não ter pulso para colocar ordem nisso ou compactuar. As duas coisas são assustadoras.

O presidente não tem pulso?
Ele é o homem mais importante do país. Mas, às vezes, tem agido como se fosse um vereador. Quando pega o telefone para dizer ao deputado “vem aqui que vou te dar um carguinho para você votar no meu filho na lista de líderes”, apequena o cargo. Caramba! Negociar o cargo de líder de um partido, uma coisa pequena para um presidente da República eleito com 57 milhões de votos. Quando essa pequenez acontece, fico entristecida. Se Bolsonaro não consegue botar ordem nos filhos, é um problema. Se compactua, o problema é maior ainda.

A senhora foi uma das mulheres mais poderosas do Congresso. Enxergava machismo?
O primeiro ataque de machismo partiu da família Bolsonaro. Logo comigo, que sempre disse que os movimentos feministas são um exagero. Nunca sofri machismo no Congresso. Cheguei lá com um bando de marmanjo, gente que está na política há décadas, e ninguém ousou. Um líder poderoso no Congresso chegou a falar, em uma entrevista, que as pessoas tinham medo de mim. Aí, justamente pelas mãos do homem que eu defendi, disse para as mulheres: “eles não são machistas, eles são machões. É outra coisa”. Mas eu me enganei nesse quesito. Espero que ainda haja correção, pelo bem do Brasil. Quero que esse governo dê certo.

Todo país precisa de um presidente honesto e competente. O Brasil elegeu alguém com essas características?
Acho que falta o preparo de gestor, experiência de liderança que o presidente não teve na Câmara. Ele nunca foi líder de nada, de comissão nenhuma. Mesmo o baixo clero consegue fazer os seus grupinhos. A falta de preparo intelectual, que também existe ali, pode ser suprida com os ministros. Se souber montar um bom time, teremos um excelente presidente. Se surtar com as emoções, como tem acontecido com frequência, se torna uma coisa perigosa. Os surtos constantes têm afastado todo mundo. Quanto tempo o Moro vai aguentar? Quanto tempo o Paulo Guedes vai aguentar?

O governo corre o risco de se desfazer?
Claramente, sim. Quantas vezes estive no Palácio e o Paulo Guedes me falou: “Não aguento mais. Vou embora”. Ou o presidente faz o reequilíbrio emocional urgente ou as pessoas vão embora. O ministro mais novo que chegou, o Luiz Eduardo Ramos (da Secretaria-Geral da Presidência da República), falou “Joice, eu perdi o brilho nos olhos”. Ele acabou de chegar. Ninguém consegue aplicar aquilo que pode para ajudar o presidente. Só o Paulo Guedes e o Sérgio Moro têm essa possibilidade porque sem eles há grandes chances de o governo sucumbir.

O seu mandato se confundiu com o governo?
Com toda certeza. Tive que me tornar um organismo, uma roda giratória do governo federal dentro da Câmara e do Senado. Todo mundo me via ali: “Ela é a boca do Bolsonaro ali dentro”. Eu ouvia tudo o que ele falava, filtrava, e trazia um discurso polido que dizia a mesma coisa. Tive que virar uma representante do governo no Congresso. Mas, com isso, consegui entregar uma das pautas da minha campanha, justamente a reforma da Previdência. Eu era o governo.

As últimas decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) foram mal recebidas pelo Congresso. O embate entre os Poderes aumentou?
A independência entre Poderes foi esquecida. Muitas vezes, o legislativo se aquietou quando deveria ter se mexido. E o Judiciário acabou engolindo um pedaço do legislativo, e começou a legislar. Isso é perigoso, está na hora de colocar cada macaco no seu galho.

“Se Bolsonaro não consegue botar ordem nos filhos, é um problema. Se compactua, o problema é maior ainda.

“Quando pega o telefone para dizer ao deputado “vem aqui que vou te dar um carguinho para você votar no meu filho na lista de líderes”, apequena o cargo. 

Impeachment 

Em entrevista publicada pelo Correio em 3 de novembro, o ex-presidente Fernando Collor afirma que se o governo Bolsonaro “continuar assim”, ele não vê a “menor possibilidade de dar certo”, trazendo à tona a perspectiva de o capitão seguir pelo mesmo caminho do caçador de marajás — que terminou o mandato após um processo de impeachment.

CORREIO BRAZILIENSE