Modelo matemático prevê áreas de risco de hantavirose no Brasil

A hantavirose é causada pelos hantavírus, vírus que são transmitidos para seres humanos principalmente por excretas (fezes e urina) de roedores silvestres infectados
Imagem: Wikipedia

Pesquisa da Unesp aponta áreas produtoras de milho e cana como de risco para doença

hantavirose é uma doença rara, mas que aumentou no Brasil nas últimas décadas. A dispersão dessa zoonose pelo Brasil foi o tema do projeto de doutorado da pesquisadora Renata Muylaert, da Unesp de Rio Claro. Ligada ao Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC), Renata avaliou a dispersão da doença desde 1993, quando foi detectado o primeiro caso na cidade de Juquitiba, no interior de São Paulo. Os modelos matemáticos desenvolvidos pela pesquisa apontaram as áreas rurais como de risco para a hantavirose, em especial os municípios que possuem grande quantidade de cana-de-açúcar, milho e fragmentos de vegetação nativa.

“Essas regiões podem ser favoráveis a roedores hospedeiros porque eles se alimentam de milho e cana-de-açúcar, e são típicos da vegetação nativa brasileira”, aponta a pesquisadora da Unesp de Rio Claro. “E nessas regiões é comum o trânsito intenso de trabalhadores rurais, que acabam tendo maior probabilidade de contato com as excretas destes roedores ao abaixar-se, cortar cana-de-açúcar ou varrer locais de armazenamento de grãos ou moradias próximas a plantações e à fragmentos florestais”, destaca.

As pesquisas desenvolvidas no LEEC também indicaram que áreas de alto risco concentram até 10 espécies de roedores hospedeiros de hantavírus. As variedades potencialmente perigosas de hantavírus pertencem aos clados (grandes grupos) Laguna Negra e Andes. Dentre os diferentes vírus já detectados, em alguns casos a patogenicidade do vírus é desconhecida, e por isso é importante que estudos de ecologia viral e virologia descrevam também estes vírus e sua dinâmica.

Renata desenvolveu modelos que estimaram a chance de haver a doença em todos os municípios brasileiros e o número de casos de 2000-2014, tendo tido um bom desempenho para prever os casos que ocorreram entre 2015 e 2016. A abordagem utilizada pela aluna incluiu dados abertos, dados do governo (DATASUS) e modelagem espacial e temporal.

Os modelos gerados são úteis para direcionar novas pesquisas em ecologia e saúde pública e alocação de recursos para prevenção da doença. A pesquisadora de Rio Claro também quantificou a incerteza dos seus modelos, o que pode ser útil para direcionar novas amostragens de roedores e vírus em áreas nas quais o risco e a incerteza dos modelos são altos. Renata segue com suas pesquisas que incluem prever o risco de outras zoonoses e estudos com ecologia de mamíferos e ecologia espacial.

A doença
A hantavirose é causada pelos hantavírus, vírus que são transmitidos para seres humanos principalmente por excretas (fezes e urina) de roedores silvestres infectados.

Esses vírus já foram abordados aqui no portal anteriormente, no texto Desvendando ameaças de hantavírus. Não existe até o momento vacina para hantavirose no Brasil, e a doença é grave, comumente levando a óbito quase metade das pessoas infectadas. É imprescindível que aos primeiros sintomas o paciente tenha atendimento médico adequado.

Os primeiros sintomas são febres, dores de cabeça e musculares. Quando o quadro piora, a hantavirose leva a dificuldades respiratórias e o paciente pode sofrer edema pulmonar e choque circulatório. Por conta da gravidade desta doença e sua íntima relação com roedores nativos, a doutoranda viu um potencial grande para unir epidemiologia (ciência das epidemias) e ecologia (ciência das interações entre seres vivos e ambiente), eco-epidemiologia, para entender melhor a dinâmica da doença no país.

01infografico_cap4-1.png

 

UNESP