Para especialistas, militarização do governo é fruto de sua incompetência…

O presidente Jair Bolsonaro participa do desfile de 7 de setembro, na Esplanada dos Ministérios.Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Incompetência, inexperiência, desarticulação com lideranças civis e quadros inexpressivos do PSL (partido pelo qual o presidente Jair Bolsonaro se elegeu) são apontados por cientistas políticos ouvidos pelo UOL como algumas das razões que fazem com que todos os ministérios vinculados à Presidência da República sejam ocupados atualmente por militares. Esse “círculo militar” que se formou nas pastas vinculadas ao Palácio do Planalto se fechou ontem com a confirmação oficial da nomeação do general Braga Netto no lugar de Onyx Lorenzoni na Casa Civil.

Agora são quatro os militares com status de ministro ocupando gabinetes no Palácio do Planalto: Braga Netto (Casa Civil); o general Luiz Eduardo Ramos (secretaria de Governo); o general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e o policial militar da reserva Jorge Oliveira (Secretaria Geral da Presidência). Inexperiência “O presidente se diz sobrecarregado e que por isso tem procurado pessoas para dividir atribuições. Isso é muito mais um sinal de sua incompetência para o cargo e inexperiência em gestão”, afirma o cientista político Rui Tavares Maluf, professor da Fesp-SP (Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo).

“A presença militar cada vez maior demonstra que Bolsonaro não tem penetração nenhuma entre as lideranças civis. Buscar compor com militares tem muito a ver com a preservação no cargo”, afirma a cientista política Vera Chaia, professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica). Militares de projeção Para Chaia, por ser uma “liderança fraca e sem expressão, Bolsonaro busca cercar-se de militares de projeção”.

Maluf pondera que Braga Netto, ex-interventor da Segurança Pública no Governo do Rio e que ocupava nos últimos meses o Estado-Maior do Exército, representa uma escolha sóbria de um militar cuidadoso no relacionamento com os civis. “Uma pessoa que demonstrou respeito àqueles que se opõem aos militares ocupando um espaço muito grande, mas só a dinâmica dos acontecimentos mostrará se isso trará um melhor relacionamento com o Congresso e com os outros ministros”, avalia.

“Bolsonaro vai se cercando de lideranças que ele não pode demitir, como o porta-voz, general Rêgo Barros, cada vez mais sem função”, afirma a professora. Também contribuíram para o crescimento da presença militar no governo o fato de Onyx Lorenzoni (DEM) não ter apresentado os resultados que o governo esperava dele, além de seu rápido desgaste após a demissão do secretário-executivo da Casa Civil, Vicente Santini, por ter viajado sozinho para a Índia em um avião da FAB.

Outro motivo que fez crescer a presença militar no governo federal é o fato de que as lideranças do PSL eleitas na esteira do fenômeno Bolsonaro “são inexpressivas nacionalmente e sem conhecimento técnico. Quem era Bivar?”, afirma Vera Chaia. Reserva técnica Os militares, prossegue a professora, acabam sendo uma reserva técnica num governo confuso. “Eles combatem os ministros terraplanistas, por exemplo”, diz.

Para Maluf, contudo, a presença militar no governo não é surpreendente. “Desde a campanha, Bolsonaro disse que sua expectativa era contar com as Forças Armadas e ele age nessa direção, apesar de sua trajetória errática no Exército”. Bolsonaro foi excluído do Exército após ser eleito vereador em 1988. Antes, tinha sido preso e condenado em primeiro grau na Justiça Militar por atos de indisciplina.

Democracia em perigo?

Os dois professores, contudo, divergem ao analisar o impacto da presença militar no governo para a democracia. Maluf, a princípio, acredita que a excessiva presença militar “não significará ruptura da ordem democrática” e que o espaço crescentemente ocupado por militares das três forças no governo é mais uma resposta ao chamado do que uma busca crescente por poder. “Mais recentemente, as Forças Armadas têm procurado demonstrar um comportamento de respeito à Constituição Federal, apesar de um ou outro discurso mais inflamado”, afirma o professor.

Para Vera Chaia, a presença militar dá um sinal ruim para a sociedade. “Estamos vendo eles voltando ao poder [após a ditadura] com uma tranquilidade enorme, sem resistência. É muito triste depois de tanta luta pela volta da democracia ver militares ocupando vários espaços no governo e na sociedade”, diz. Vera relembra que em grandes crises internacionais, como as queimadas na Amazônia, o surto do novo coronavírus na China e no episódio do óleo das praias, Exército, Aeronáutica e Marinha, respectivamente, foram chamados. “Eles ganham espaço justamente pela fraqueza de Bolsonaro”, conclui.

UOL