Retrocesso no combate à corrupção no Brasil preocupa a OCDE

“Medidas de abuso de autoridade aprovadas pelo Senado levantam preocupações sobre a capacidade do Brasil de assegurar a independência dos promotores e juízes no combate à corrupção”, diz a nota da OCDE.

 

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) enviará ao Brasil uma missão de alto nível para avaliar o aparente retrocesso no combate à corrupção no país.

A informação foi confirmada pelo site O Antagonista na tarde desta quinta-feira (10).

O site afirmou ainda que “funcionários do órgão também estão preocupados com as decisões que limitaram a atuação do COAF e da Receita Federal, entre outras”.

No 1º dia do mês de julho de 2019, a Comissão Antissuborno da OCDE emitiu um alerta em relação à aprovação da controversa Lei de Abuso de Autoridade.

íntegra da nota publicada pelo grupo de trabalho da OCDE pode ser lida abaixo:

Medidas de abuso de autoridade aprovadas pelo Senado levantam preocupações sobre a capacidade do Brasil de assegurar a independência dos promotores e juízes no combate à corrupção

O Grupo de Trabalho da OCDE sobre Suborno reafirma a importância da independência dos promotores e juízes e apontou preocupação com o fato de que as conquistas do Brasil no combate à corrupção possam ser seriamente ameaçadas pelas recentes mudanças no legislativo.

Em 26 de junho de 2019, o Senado brasileiro adotou um projeto de lei que, além de apresentar alguns desenvolvimentos positivos no combate à corrupção, introduz uma definição excessivamente ampla da ofensa de abuso de autoridade por juízes e promotores, caracterizada por alguns elementos subjetivos. O Grupo de Trabalho que estuda o tema está seriamente preocupado com o fato de que, se aprovada, essa ampla definição poderia servir como um mecanismo para que indivíduos corruptos agridam injustamente promotores e juízes, desencadeando um efeito significativo de resfriamento/abrandamento nos processos e investigações de combate à corrupção. Outro ponto abordado pelo estudo é o risco de perda da capacidade do Brasil de cumprir integralmente suas obrigações no âmbito da “Convenção Antissuborno”, em particular, nos termos do Artigo 5, sobre investigações e processos independentes.

O Grupo de Trabalho já havia demonstrado preocupações semelhantes sobre o projeto de lei no passado. Algumas de suas disposições atuais parecem, no entanto, abordar uma série de recomendações do Grupo de Trabalho feitas ao Brasil durante sua avaliação da “Fase 3”, realizada em outubro de 2014. Em particular, aumentaria as sanções e estenderia o prazo de prescrição para permitir mais tempo para julgar e processar e sancionar indivíduos em casos de suborno estrangeiro. Por outro lado, outras disposições são vagas e indefinidas. Por exemplo, certas provisões afirmam que a ofensa é cometida por “mero capricho ou satisfação pessoal” sem qualquer definição. Isso é excessivamente subjetivo e pode levar ao abuso em sua aplicação.

Em outubro de 2016, o Grupo de Trabalho elogiou o Brasil pelo progresso na implementação das recomendações recebidas durante sua avaliação da Fase 3 em outubro de 2014. Das 39 recomendações do Grupo de Trabalho para o País, 18 foram totalmente implementadas e 13 parcialmente implementadas. O Grupo incentivou o Brasil a continuar seus esforços para implementar as 8 recomendações restantes. Desde a sua avaliação da Fase 3, foram processados e sancionados com sucesso as ofensas de suborno estrangeiro, em casos proeminentes de múltiplas jurisdições.

O Grupo de Trabalho convida as autoridades brasileiras a levantarem as deficiências identificadas no processo legislativo em andamento, tendo em mente as disposições do Artigo 5 da Convenção.

Embora reconheça o trabalho exemplar já realizado no Páis e respeite plenamente o processo legislativo brasileiro, o Grupo de Trabalho encoraja veementemente o Brasil a continuar sua tendência positiva de reformas, preservando a capacidade total de seus promotores e juízes para investigar e processar subornos estrangeiros. O Brasil fornecerá um relatório por escrito ao Grupo de Trabalho sobre a situação do projeto de lei em outubro de 2019.”

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