VITÓRIA Hospital público do Paraná cura paciente com bactéria ultra-resistente

Josué Melchiades da Costa descobriu que tinha tuberculose aos 27 anos. A notícia veio sem muito conhecimento sobre o que se tratava e, como “era jovem demais e sem responsabilidade”, diz ele; não seguiu o tratamento de forma adequada. Por 13 anos em que conviveu com a bactéria, viveu entre internamentos, revolta e a desistência. Já curado, o mecânico de caminhões diz que a perseverança e a persistência são peças-chave para a cura.

Em 2006, Josué iniciou o tratamento indicado na Unidade Básica de Saúde de Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba, e encaminhado para o Hospital Regional São Sebastião, na Lapa. O local é referência no atendimento de pacientes com tuberculose no Paraná.

Depois do primeiro período de internamento, passou por fases em que permanecia no hospital, seguia recomendação dos médicos em casa adequadamente, mas, em outras épocas, solicitava a alta médica por conta própria e ia para casa. Assim, oscilando o tratamento, ou mesmo por doses inadequadas de fármacos, desenvolveu a tuberculose Multi-Resistente, ou MDR.

No início da doença do Josué, os médicos indicaram os remédios que estavam na primeira linha de abordagem. Quando a bactéria evoluiu para MDR, se tornando assim resistente para os primeiros medicamentos, o paciente passou a ser tratado com a segunda linha. “Cheguei nesse estágio por minha culpa, não foi culpa dos remédios, nem dos médicos, só minha”, disse Josué.

Quando informou que abandonaria o tratamento para a tuberculose MDR, os médicos insistiram para o paciente não desistir. “Depois de dois meses internado eu não aguentava mais. Falei para todos quando abandonei: não adianta gastar saliva comigo. Por isso eu sei, foi teimosia minha, porque abandonei e a doença foi se agravando”, afirmou.

Em uma das internações, a recomendação da equipe médica foi de que o Josué ficaria seis meses internado. Porém, chegando o prazo estipulado, os exames ainda mostravam que ele estava com tuberculose, mas mesmo assim Josué decidiu ir para casa. “Um dia chegou o oficial de Justiça. Depois entendi que isso foi uma medida necessária porque eu estava colocando em risco outras pessoas”.

Essa forma de internação foi resultado da mobilização de pessoas que atuavam no tratamento e perceberam que Josué era um risco para a saúde de outras pessoas.

Depois desse tempo, mais uma vez a bactéria resistiu levando a doença para a chamada tuberculose extensivamente resistente, ou TB-XDR. Essa forma da doença atinge 30 mil pessoas em todo o mundo entre as mais de 10 milhões de infectados.

No Brasil são 19 pacientes que buscam a cura do bacilo na sua condição mais potente identificada até os dias atuais. No tratamento inicial, a chance de cura é de 95%. Com a evolução da resistência aos medicamentos, esse número reduz e na TB- XDR, caso do Josué, a chance de cura é de 20%.

INÍCIO DA CURA – Dia 26 de julho de 2017 foi o início da última etapa de tratamento. Ele chegou ao Hospital Regional São Sebastião da Lapa e conheceu o médico Francisco Beraldi de Magalhães. Após uma longa conversa veio a decisão de abandonar o cigarro e o álcool e focar no tratamento.

“A condição de TB-XDR é rara e o bacilo é resistente a quase todos os medicamentos. Não há nada específico para tratamento. Por isso precisávamos tentar algo diferente e, hoje, vemos que deu muito certo”, explicou o infectologista.

Embora o planejamento inicial fosse de apenas 20 dias, quando o médico avaliou o paciente e os resultados de exames, teve outra conversa com o Josué. “Depois de estudar o quadro do Josué, vi que precisávamos tentar uma terapia de salvação, ajustei uma nova estratégia terapêutica, com duração de pelo menos dois anos em regime de internação. Mas com o passar do tempo, uma vez ou outra ele pedia para ir para casa e nos mobilizávamos para levar até a casa dele todos os remédios necessários para uma semana, alguns dias e assim não parávamos o tratamento”.

INOVAÇÃO – Ainda no início dessa nova etapa o infectologista se propôs a encontrar uma melhor maneira de tratar o Josué. Buscou e pesquisou mais informações no mundo inteiro para ter referências e alternativas para o paciente. O Josué já estava em uso de uma medicação nova no Brasil, a bedaquilina, mas as demais medicações em uso, nas estratégias de dose necessárias, fariam com que ele precisasse permanecer internado por pelo menos 2 anos.

De acordo com o médico, dois pacientes foram tratados na Itália com o mesmo medicamento (ertapeném), uma mulher ucraniana que se curou, e um outro paciente da Moldávia se tratou mas, infelizmente, morreu.

“Essa doença é carente em relação aos medicamentos, não há uma gama muito grande ou vasta de fármacos. Mas, quando nos deparamos com casos desafiadores, acredito que devemos usar o conhecimento que temos com as armas que estão disponíveis, mas com outras estratégias”, disse o médico.

Ele salientou que a estratégia foi um novo plano de combinação dos medicamentos e muitas parcerias para viabilizar os remédios que estavam fora da lista dos ofertados pelo poder público. “Fizemos um esforço conjunto para conseguir um medicamento mais potente do que estava previsto, arriscar com doses mais altas e buscar aliados e parceiros na Secretaria da Saúde. Um tratamento mais eficaz com o paciente em casa é fantástico”.

O plano foi inovador porque a equipe propôs uma combinação dos medicamentos que possibilitou ao paciente ficar internado no Hospital por seis meses e o restante do tempo, os 19 meses, em casa. A combinação incluiu a aquisição pela Secretaria estadual da Saúde de 895 frascos de ertapeném. Além deste, outros 12 tipos de medicamentos entre comprimidos, bolsas e ampolas foram utilizadas. Nos 27 meses, foram mais de 3,2 mil comprimidos, 2,1 mil frascos e 245 ampolas de medicamentos. Considerando que o tratamento indicado variava as doses de cada remédio, assim como alguns via intravenosa, a combinação foi o tratamento de salvação, como indicou o médico, porque é de alto risco. Essa forma de tratamento viabilizou reduzir o período de internamento e seguir o tratamento em casa. Os exames mostraram resultado positivo após um ano.

Nessa etapa, o médico sugeriu uma outra abordagem: cirurgia para retirar uma parte do pulmão. O plano foi executado por cirurgiões em Campo Largo. Na sequência, o tratamento seguiu com medicamentos via oral e intravenosa. Os resultados dos exames diários mostravam que o resultado consequência de uma série de fatores: disciplina, boa reação do organismo e perseverança, nas palavras de Josué.

ALTA – Após 824 dias no último tratamento, a data da liberação do Josué coincidiu com o aniversário de 92 anos do Hospital Regional São Sebastião. Para marcar os dois acontecimentos foi realizado um dia de comemoração.

O médico Francisco destacou que a cura foi gratificante porque foi inovador e um trabalho em conjunto. “Do ponto de vista médico-científico é um caso que apresenta uma grande inovação no tratamento da tuberculose”. Ele reconhece que sem o esforço do paciente, o tratamento não seria bem-sucedido.

DOENÇA – A tuberculose é uma doença infecciosa e transmissível que afeta prioritariamente os pulmões, embora possa acometer outros órgãos e/ou sistemas. De acordo com informações do Ministério da Saúde, 25% da população mundial está infectada, mas a doença não se desenvolve. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a doença como uma das 10 principais causas de morte.

HOSPITAL – O Hospital São Sebastião da Lapa foi fundado em 30 de outubro de 1917. Inicialmente chamado de Sanatório São Sebastião, a estrutura quase centenária chegou a atender mais de 400 pacientes internados para o tratamento da tuberculose. A unidade própria está localizada na Lapa, a 70 quilômetros de Curitiba. É uma das 21 unidades próprias do Estado, entre centros de especialidades e hospitais.

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