A milícia federal está nua

Nos últimos dois anos o Intercept tem se dedicado a cobrir as entranhas das milícias que atuam no Rio de Janeiro de maneira sistemática e com muito cuidado. Já contamos como milicianos assumiram o controle da cidade a partir de dados exclusivos do Disque Denúncia, fomos os primeiros a apontar a relação de milicianos com os assassinatos de Marielle Franco e de Anderson Gomes e, em abril, publicamos uma reportagem que decifra o enigma da rachadinha do gabinete de Flávio Bolsonaro. A grana desviada da Alerj servia para financiar obras ilegais de construtoras de uma milícia, segundo investigações do MPRJ que agora chegaram a Fabrício Queiroz, o tesoureiro da família presidencial.

Na segunda-feira, saiu nossa matéria mais recente. Mostramos como policiais e promotores envolvidos na investigação do assassinato de Marielle identificaram uma espécie de “bancada da milícia” atuando no legislativo do Rio.

Depois de tanto tempo cobrindo esse tema, notei que nem todos parecem ter um entendimento sobre o que significa “milícia”. O que percebi é que essa palavra não comunica tão bem com quem não é do Rio de Janeiro. Mas é uma palavra muito importante neste momento, porque é chave para entender com quem a família Bolsonaro está envolvida.

Sendo direto: milícia é crime organizado armado, bandidagem, assassinatos. Isso é milícia. É máfia: um grupo de pessoas que domina um território e cobra “proteção” da população local. Quem não pagar, morre.

Na Itália, a Cosa Nostra começou exatamente assim antes de se tornar uma das maiores exportadoras de cocaína do mundo. Assim como na Itália, a taxa de segurança das milícias no Brasil é só o começo.

A milícia ainda cobra dos moradores taxas no gás, na água e em vários serviços que eles consomem. Você não pode comprar um botijão de gás de quem quiser: tem que comprar onde os criminosos mandam.

A milícia também pratica execuções de aluguel. Você paga, eles matam. Trabalham como pistoleiros. O “Escritório do Crime”, braço armado de milicianos que matou Marielle Franco, funciona assim. O capitão Adriano da Nóbrega – que tinha mãe e esposa lotadas no gabinete de Flávio Bolsonaro – era matador e chefe de milícia. Ele não sobreviveu pra contar a história.

A variedade de negócios que milicianos operam é enorme. Eles têm construtoras, bocas de fumo, empresas de transporte, operadoras de TV a cabo clandestinas. Onde der pra ganhar e lavar dinheiro, eles estão envolvidos. São cada dia mais poderosos no Rio e a tendência é que passem a atuar no resto do país — sempre com a proteção ou a participação de elementos corruptos do Estado.

E por que é tão importante que todo mundo nesse país compreenda direitinho o que é uma milícia, quem faz parte dela e como ela funciona? Ora, porque a milícia está hoje no centro do poder.

Como já foi amplamente demonstrado na imprensa, os quatro gabinetes da família Bolsonaro sempre operaram como uma grande empresa de mamata profissional. Queiroz entrou na roda levado por Jair, sua esposa trabalhou no gabinete de Flávio, sua filha, no gabinete do próprio Jair na Câmara em Brasília. A repórter Juliana Dal Piva, do jornal O Globo, mostrou que os quatro Bolsonaro empregaram por quase três décadas 102 pessoas com laços familiares. É uma engrenagem de rachadinha para irrigar outros negócios.

O presidente e seus filhos, portanto, não são apenas vizinhos de milicianos. Os laços são mais profundos também do que as condecorações que ofereceram para milicianos na Alerj (e inclusive durante cumprimento de pena na cadeia, como Adriano da Nóbrega). Os Bolsonaro têm negócios com a milícia e por tudo o que a investigação sobre Queiroz mostrou na semana passada, ficou bem explícito que ele era muito mais do que o sujeito que depositava a rachadinha. Queiroz, pelo que se sabe agora, é similar a um tesoureiro da máfia: não é laranja dos seus chefes, mas sim operador. Um PC Farias.

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