“Bolsonaro adotou uma política de destruição da Amazônia”

O senador Randolfe Rodrigues, da Rede Sustentabilidade, pode-se dizer, construiu uma carreira política meteórica desde que chegou a Brasília. A aposta do eleitor do Amapá foi certeira. Randolfe foi o mais votado da história do estado nas eleições de 2010. Atualmente, ele ocupa o posto de líder da oposição ao governo Bolsonaro no Senado Federal. E, por conta da sua atuação, tornou-se uma das referências da sua geração de políticos. Com grande preocupação social, nesta entrevista ao Informe do Dia, ele respondeu na lata que hoje, dada a conjuntura terrível agravada pela pandemia de coronavírus, ele considera a prioridade número 1 “a aprovação/criação de um programa de Renda Mínima, um programa de Renda Básica Emergencial, como vários outros países do mundo estão fazendo”. Outra certeza de Randolfe é quanto a necessidade de fortalecimento do SUS. Sobre a maneira de governar do presidente, o parlamentar é sempre contundente: “Jair Bolsonaro é a derrota em pessoa da moral e da ética. 

A crise está mais grave pelos erros, pela tragédia que tem sido a condução do enfrentamento da pandemia por parte do governo”.

Quais são os três principais problemas políticos que deveriam ser enfrentados pelo país imediatamente?

Já pensando no pós-pandemia, é a recuperação da capacidade produtiva do Brasil para geração de empregos e, junto com isso, o Estado proteger os mais vulneráveis. Então, nesse sentido, a primeira iniciativa deveria ser a aprovação/criação de um programa de Renda Mínima, um programa de Renda Básica Emergencial, como vários outros países do mundo estão fazendo. Isso é urgente, porque nós vamos ter mais de 12% da população economicamente ativa desempregada no país, e nós vamos ter o aprofundamento da miséria no pós-pandemia. Renda Básica Emergencial seria a primeira providência. Segundo, nós temos que fortalecer o Sistema Único de Saúde. Nós vimos durante essa pandemia a necessidade, a urgência que tem de nós termos um Sistema Único de Saúde preparado para atender as pessoas. Também vimos a importância de um Sistema Único de Saúde universal, gratuito, de acesso a todos como é o nosso SUS. Me permita colocar um terceiro e um quarto. Terceiro: nós tínhamos que aprovar urgentemente o Fundo de Desenvolvimento para a Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, o FUNDEB, no Congresso. Embora não tenha política educacional por parte do governo Bolsonaro, embora a gente tivesse ficado 20 dias sem um ministro da Educação, o Congresso não pode se omitir de sua responsabilidade. Sem o FUNDEB, ano que vem, o ensino básico e fundamental não terá a principal fonte de financiamento da educação brasileira. Então, a terceira iniciativa é essa: a aprovação do FUNDEB. 


A quarta, junto com essa, é recuperar a credibilidade do Brasil na seara internacional, destruída pela política do governo de Jair Bolsonaro e, principalmente, pela política de destruição da Amazônia que tem sido patrocinada pelo governo, e que tem sido responsável pelo derretimento da imagem do país no exterior.

A invasão de terras indígenas e o desmatamento são sérios problemas enfrentados hoje nas florestas brasileiras. Quais as consequências imediatas do que está acontecendo?




O que nós estamos vendo: cartas como essas que nós recebemos de 30 dos principais fundos de investimento do planeta, informando que deixarão de investir no Brasil. A deterioração da imagem do Brasil no cenário internacional. Não adianta, como alguns querem, derrubar floresta para plantar soja se não vai ter lugar no mundo que compre a soja do Brasil. Quem está pensando assim, está pensando anacronicamente. Está esquecendo em qual mundo está vivendo, está esquecendo a necessidade de redução da emissão de CO2 na atmosfera. Me parece que o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, já compreendeu isso. Mas o presidente da República, e muitos aliados dele, não entenderam nada disso.





O presidente Jair Bolsonaro ainda conta com um apoio expressivo de um segmento conservador da sociedade. O que faz ele manter esse “prestígio” mesmo diante de sucessivos escândalos contra seu governo?

Eu diria que o núcleo duro do bolsonarismo, na verdade, está um pouco inflado. Não são esses 30%. O núcleo duro do bolsonarismo é algo em torno de 12%, 15% desse percentual que eles têm, que são mais pautados por uma falsa pauta de costumes que o bolsonarismo vende. Conservador não tem nem com o quê se identificar com Jair Bolsonaro, porque conservador de verdade basta olhar para Jair Bolsonaro e ver que ele é o avesso a qualquer valor moral. 

Aliás, Jair Bolsonaro é a derrota em pessoa da moral e da ética. Quem é conservador tradicional é a favor de moral, ética e bons costumes. Jair Bolsonaro é tudo que é contra isso. Desde que ele começou, desde a condição dele de ser um militar que foi expulso do Exército brasileiro, até a atuação dele como parlamentar, sempre envolvido, sempre fazendo esqueminha de gabinete, né? A história da rachadinha começa no gabinete dele, não começa com o do filho Flávio, não. Começa com ele. E seja pelo comportamento moral dele, ele não tem régua moral nenhuma para se ter alguma identidade. Esses números do bolsonarismo estão um pouco mais inflados em parte até pelo que o Congresso fez, aprovando o auxílio emergencial, que, nesse momento de pandemia, faz com que alguns dos mais pobres achem que esse auxílio emergencial foi uma obra e graça do governo Jair Bolsonaro, o que não foi. Se não tivesse sido a atuação do Congresso, esse dinheiro não chegaria.

O eleitor que ainda defende o presidente Bolsonaro diz que, “pelo menos” o atual governo “não é corrupto” e nem acumula “casos de corrupção”. Este argumento é correto?




Quem assim ainda pensa, deve estar descrevendo ou falando de um governo diferente. O governo de Jair Bolsonaro está envolto nos maiores esquemas de corrupção que já se viu na história do país. Se tinha esquema de corrupção no Lula/Petismo, o governo de Bolsonaro está envolto em esquemas piores. Veja: o esquema do senhor Fabrício Queiroz é esquema de rachadinha misturada com a atuação de milícias no Rio de Janeiro; o presidente bate recorde do uso do cartão corporativo; o presidente desmontou toda a infraestrutura de combate à corrupção que existia no país; não respeitou a lista tríplice para procurador-geral da República, colocou um procurador-geral da República à sua imagem e semelhança; colocou um diretor da Polícia Federal que ele possa controlar para que as investigações da PF não cheguem até seus filhos; atua diariamente para inibir a atuação de órgãos de fiscalização e controle; o Brasil tem perdido pontos na transparência internacional. É um governo chamuscado e envolto em esquemas de corrupção.

Alguns dizem que o Congresso e o STF “não deixam o presidente trabalhar”. Isto é verdade?

É uma anomalia isso, porque veja: o presidente fez uma aliança com o que tem de pior e mais atrasado na política brasileira, que é o velho Centrão, que manda no Congresso Nacional, desde 1985, quando teve a redemocratização, de figuras como Valdemar Costa Neto, Roberto Jefferson e companhia. São figuras que tem passado, presente e futuro em todos os esquemas de corrupção que já se teve na história do país. Então, ele tem base parlamentar, consegue favores, distribui favores, distribui emendas, tem o presidente do Senado à disposição dele. O presidente da minha Casa é muito próximo a ele, tem sempre ajudado o presidente da República. O presidente tem tudo para fazer o que quer, e tem feito. Só não tem governado o Brasil, mas tem um parlamento inteiro à sua inteira disposição.

O senhor considera possível ocorrer o impeachment do presidente?




Não. Para ocorrer o impeachment, tem que ter apoio popular, pressão de rua, tem que ter mobilização de rua pressionando o Congresso para que isso aconteça. Hoje, até por conta da pandemia, essa pressão, essa mobilização de rua, eu acho que não tem. Embora eu apoie o impeachment e tenha protocolado o pedido de impeachment, hoje eu acho que o impedimento do presidente é uma hipótese muito remota, até por essas alianças que o presidente já fez.

Qual a importância dessa frente ampla pela democracia? Apesar de envolver toda a sociedade, qual o papel político dela?

Primeiro, superar esse momento difícil, triste e amargo que todos nós brasileiros estamos enfrentando. O Brasil está retrocedendo em todos os seus aspectos. Nós estamos nos tornando pária na seara internacional. Nós, antes, se éramos desrespeitados somente pela atuação funesta do nosso Itamaraty e nosso Ministério das Relações Exteriores, agora também estamos sendo desrespeitados pela condução errada que nós demos ao enfrentamento da pandemia, pela condução desastrosa da política ambiental, aliás, da anti-política ambiental conduzida pelo anti-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Nós ficamos 20 dias sem ministro da Educação. Na prática, estamos há quase dois anos sem ministro, devido ao retrocesso na área da Educação. O último Enem foi uma bagunça. Esse Enem não tem um planejamento. O governo não deu contribuição alguma à tramitação e ao debate sobre o FUNDEB no Congresso Nacional, o Ministério da Educação virou um palco de crises, a política de direitos humanos do Brasil, que já foi referência internacional, está entregue para uma senhora que não tem respeitabilidade nenhuma à condução de políticas de direitos humanos, nem na comunidade nacional, nem na comunidade internacional. A política econômica está perdida, o governo não sabe para que caminho direciona ou aponta a sua política econômica. A frente ampla é para superar essa crise, derrotar Jair Bolsonaro. Se não for a curto prazo, derrotar a longo/médio prazo, nas próximas eleições e, a partir daí, reconstruir o Brasil. Frente ampla tem que caber todos. Eu quero frente ampla com setores da direita, do centro e da esquerda.

Como deve ser o diálogo entre políticos e partidos políticos nesse momento para o combate à pandemia do coronavírus?




Colocando a saúde dos brasileiros em primeiro lugar. Muita coisa nós temos feito lá no Congresso Nacional: temos pautado a agenda baseada nas prioridades que estão sendo colocadas para a sociedade. Por isso que aprovamos o auxílio emergencial, por isso que recentemente foi apontado em uma pesquisa que a cada 10 medidas de combate à pandemia, 8 surgiram lá do Congresso Nacional, surgiram no debate do parlamento. 

A crise está mais grave pelos erros, pela tragédia que tem sido a condução do enfrentamento da pandemia por parte do governo de Jair Bolsonaro. Nós já tivemos mais de 65 mil brasileiros mortos. O número de mortos na pandemia já é mais do que de todas as guerras que Brasil já participou desde o seu surgimento como nação independente no planeta. A responsabilidade da condução do enfrentamento à pandemia é principalmente pelo senhor presidente da República.

O DIA