Butantan mostrou eficácia melhor que realidade, diz ex-presidente da Anvisa

O infectologista Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa

VALÉRIA GONÇALVEZ/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

O infectologista Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), criticou a divulgação pelo Instituto Butantan da eficácia da CoronaVac e acredita que o número “vai mudar”. “Provavelmente vamos chegar a alguma coisa em torno de 63% a 68% de eficácia, o que é absolutamente eficiente. Precisamos ter uma eficácia acima de 50% para atingir a imunidade coletiva. Acima de 50% temos uma boa vacina e que protegerá a população. Por que o Butantan fez isso? Não faço a menor ideia. Tentou mostrar as coisas de uma forma melhor do que são, sem necessidade”, disse Vecina em entrevista à CNN Brasil.

Vecina explica que o número deve mudar porque as novas informações vão incluir “grupos 0, 1 e o 2 na classificação da OMS (Organização Mundial de Saúde) no nível de gravidade. Eles começaram no nível 3, é o que deu os 78%”. Com a inclusão dos outros índices, ele prevê uma eficácia semelhante à divulgada hoje pela Indonésia, que foi de 65,3%. “Lembrando que não é necessário que os testes sejam semelhantes. Estamos falando de fenômenos biológicos e amostras diferentes. Quando você pega a Turquia, que deu quase 90%, mais de 90%, mas eles trabalharam com uma amostra relativamente pequena, mil e poucas pessoas, e não trabalharam com profissionais da saúde. Aqui no Brasil trabalhamos com profissionais da saúde que têm uma chance muito maior de adoecer”, completou o infectologista.

Eficácia parcial

Apesar de ter divulgado a eficácia de 78% da CoronaVac na semana passada, o Instituto Butantan e o governo de São Paulo usaram um dado ainda incompleto, que não determina a eficácia geral da vacina. O número apresentado foi em relação aos desfechos secundários analisados nos estudos clínicos.

No anúncio dos dados completos prometido pelo governo paulista para amanhã (12), é esperado que a CoronaVac demonstre uma eficácia entre 63% e 68%, o que é considerado mais do que suficiente para uma vacina contra a covid-19. O mínimo exigido para a aprovação da Anvisa é uma proteção com 50% de eficácia. Com os dados ainda incompletos, na prática faltam serem apresentados os números do desfecho primário do imunizante, que englobam faixas etárias e recortes por grupos populacionais, muito importantes para a avaliação da CoronaVac se consideramos os grupos de risco da covid-19. A eficácia em idosos, por exemplo, não foi divulgada.

Por outro lado, o número apresentado é promissor principalmente para garantir o potencial da vacina para evitar que pacientes precisem de atendimento e desenvolvam formas graves da doença. Desta forma, estaríamos controlando a pandemia no país. Diferentemente da CoronaVac, outras vacinas contra a covid-19 tiveram a apresentação dos dados integrais de eficácia quando foram feitos seus anúncios. Foi assim com os imunizantes da Pfizer/BioNTech e da Moderna.

UOL