Líderes religiosos são investigados, mas raramente condenados

Edir Macedo, líder evangélico e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus

Colaboração transnacional aponta que investigações contra líderes religiosos no Brasil, Argentina, Chile, Trinidad e Tobago, México e Colômbia se estendem há anos e poucas são concluídas

Por Rebekah Ward, Beatriz Muylaert, Matthew Albasi, Giannina Segnini

Quando líderes religiosos de fama internacional ou suas igrejas – algumas delas bem consolidadas no continente americano – são acusados de crimes financeiros como lavagem de dinheiro ou fraude, podem enfrentar anos de investigação, mas dificilmente se consegue confirmar ou negar as suspeitas. Esta é uma das descobertas da reportagem investigativa transnacional Paraísos de Dinheiro e Fé, realizada pelo Columbia Journalism Investigations (CJI), Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo e outros nove veículos, que analisaram mais de 60 investigações e casos recentes que envolvem igrejas ou seus hierarcas.

A reportagem encontrou casos no Brasil, na Argentina, no México, no Chile e na Colômbia em que autoridades – unidades de combate à lavagem de dinheiro ou procuradores – abriram investigações por movimentação financeira suspeita, acúmulo de propriedades de luxo em nome dos líderes e suas famílias ou suposta sonegação de impostos. Alguns desses casos levam anos sem formalização de acusações e em ao menos um o processo prescreveu sem que se chegasse a uma decisão.

Investigar pastores e igrejas por possíveis crimes financeiros é desafiador, afirma Marcus Owens, ex-diretor da Divisão de Organizações Isentas do Serviço de Impostos Internos dos Estados Unidos, que supervisiona igrejas. “Não é como investigar lavagem de dinheiro por si só”, explica. “[Quando você investiga igrejas] você está sugerindo um comportamento inapropriado de um grupo que muitos na sociedade admiram. A questão não é se a investigação é bem fundamentada ou não.”

No Brasil, o Ministério Madureira, um dos braços da principal denominação evangélica do país, a Assembleia de Deus, foi relacionado a um suposto caso de lavagem de dinheiro. A apuração também envolve o líder do Ministério Brás da mesma igreja, Samuel Cassio Ferreira. Eles estão sendo investigados desde 2015 por possível lavagem de um suborno pago a um político condenado na Lava Jato.

O caso surgiu quando um colaborador da operação revelou informações que levaram os procuradores a questionar se a Assembleia de Deus Madureira e Cassio Ferreira estavam lavando dinheiro do esquema de corrupção. Até o momento, nenhum investigado foi acusado, mas, se o caso chegar ao tribunal, pela lei brasileira, a igreja em si não poderia ser julgada, apenas indivíduos, como o seu líder.

O inquérito preliminar tenta estabelecer se Ferreira lavou dinheiro usando contas bancárias da Assembleia de Deus Madureira para o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, condenado em 2017 a 15 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. 

Foram depositados R$ 250 mil diretamente na conta bancária da igreja, e, segundo o colaborador do caso contra o ex-deputado, esse valor seria parte do suborno devido a Cunha referente a facilitação de contratos com a Petrobras. O advogado de Ferreira, Antônio Carlos de Almeida Castro, disse que seu cliente ainda não foi ouvido a respeito dos fatos investigados e que os depósitos feitos na conta da igreja foram devidamente contabilizados e se relacionam com sua função principal (receber doações), sem nenhuma irregularidade.

A reportagem entrou em contato com a igreja para que desse sua versão do caso, mas esta não respondeu até a data da publicação. O caso conduzido pela 13ª Vara Federal de Curitiba está atualmente indisponível ao público.

Na Argentina, a Justiça abriu uma investigação contra a filial local de outra grande igreja brasileira, a Igreja Universal do Reino de Deus, criada pelo líder evangélico e empresário de meios de comunicação Edir Macedo. A investigação é relativa à ocorrência de numerosos depósitos de grandes somas de dinheiro vivo efetuados na conta da igreja. A Unidade de Informação Financeira (UIF), entidade de combate à lavagem de dinheiro na Argentina, reportou as operações como suspeitas porque não conseguiu confirmar sua licitude e sua origem. A UIF identificou que o dinheiro foi usado em outras operações bancárias e também para a compra de carros, imóveis e um avião.

A Igreja Universal do Reino de Deus na Argentina afirmou que o dinheiro provinha do dízimo de seus fiéis, que em sua maioria não se identificavam. Por esse motivo, a UIF determinou que “não conseguia estabelecer o perfil econômico nem atestar a veracidade dessas doações”. Dos doadores analisados pelo órgão, “a maioria evidenciava falta de perfil patrimonial que permitisse um excedente de receita para uma doação posterior”, segundo informou ao Infobae uma fonte judicial.

Edir Macedo, líder evangélico e fundador da Igreja Universal do Reino de Deus

No Brasil, em um caso separado, tanto Edir Macedo como outro líder da Igreja Universal do Reino de Deus, o bispo João Batista, eram investigados por lavagem de dinheiro e outros crimes e chegaram a ser réus em um processo na justiça criminal federal.

Conforme a Agência Pública e a Folha de S.Paulo, parceiros desta colaboração, revelaram, quatro meses antes da prescrição do processo, a juíza Silvia Maria Rocha da 2a Vara Criminal Federal em São Paulo indagou o Ministério Público (MP) da data máxima para iniciar o julgamento. O MP respondeu que faltavam apenas quatro meses, mas nada foi feito. Após oito anos de investigações, o caso prescreveu em setembro de 2019, quando venceu o prazo legal para iniciar o julgamento contra Macedo e Batista. Ambos sempre negaram as acusações.

No México, Naasón Merarí Joaquín García, líder da igreja A Luz do Mundo, presente em 58 países, é investigado por lavagem de dinheiro e evasão fiscal, segundo apurou o parceiro da investigação no país, Mexicanos contra la Corrupción y la Impunidad (MCCI). A Unidade de Inteligência Financeira (UIF) mexicana localizou transferências suspeitas para os Estados Unidos, Nicarágua, Bolívia, Polônia e Hong Kong, feitas por entidades ligadas à igreja ou a seu líder. No início de 2020, o órgão ordenou o congelamento de diversas contas do hierarca religioso e de cinco de suas empresas e organizações contendo o equivalente em pesos mexicanos a cerca de US$ 17,6 milhões.

Em frente à sede internacional da igreja A Luz do Mundo em Guadalajara, uma placa gigante foi colocada em apoio ao apóstolo, que é considerado inocente das acusações de abuso sexual

A UIF mexicana investiga também se a igreja ou seu chefe desviaram ofertas e doações de fiéis para adquirir 51 imóveis entre 2004 e 2018.

A defesa legal da Luz do Mundo qualificou as acusações de infundadas e conseguiu que algumas de suas contas bancárias fossem liberadas. O porta-voz e representante legal da igreja, Silem García, afirmou à reportagem: “A Luz do Mundo é a única igreja em que os recursos são administrados pelos próprios fiéis, então não tem como o dinheiro ser desviado. Nosso apóstolo não tem acesso às contas, ele recebe um salário como pastor. A UIF o acusa de evasão, mas ele cumpre suas obrigações porque faz sua declaração de impostos nos Estados Unidos”.

A UIF informou, no início de agosto, que contas de três organizações ligadas à igreja seguiam congeladas e que já havia formalizado uma denúncia à Procuradoria-Geral da República por suposta lavagem de dinheiro.

Naasón, que é chamado em sua igreja de “Apóstolo de Jesus Cristo”, está preso nos Estados Unidos desde junho de 2019, acusado pela Procuradoria da Califórnia de 22 crimes, incluindo pornografia infantil e abuso sexual de menores. Além disso, a Procuradoria-Geral mexicana tem uma investigação aberta contra o pastor pelos mesmos supostos crimes e já obteve depoimentos de vítimas para reforçar a acusação, segundo revelou um funcionário. A defesa acusa a existência de uma conspiração para desprestigiar o pastor e sua igreja.

Residência ocupada por Naasón em Los Angeles

Algumas das mulheres vítimas de abuso também deram informações à Justiça dos Estados Unidos sobre os múltiplos bens que a igreja e seus líderes acumularam no país. Com base nessas denúncias, MCCI encontrou nos registros públicos do país um total de 35 imóveis em seis estados no nome de Naasón ou de familiares – um valor aproximado de US$ 26 milhões.

As vítimas deram também pistas sobre operações financeiras suspeitas. “Naasón e outros recrutam membros da Luz do Mundo para realizar viagens regulares a Guadalajara (sede da igreja) com dinheiro em espécie escondido pelo corpo e em malas”, acusou Sochil Martin em seu depoimento à Justiça, no qual denunciou também que Naasón havia abusado dela desde o início da adolescência. O encarregado legal da defesa da igreja, Silem García, disse que as acusações de Sochil são mentirosas e negou que a Procuradoria mexicana tenha aberto uma investigação contra seu apóstolo.

No Chile, no final de 2017, a Procuradoria abriu uma investigação contra o bispo metodista Eduardo Durán Castro por suposta lavagem de dinheiro, devido ao rápido crescimento de seu patrimônio pessoal – que chegou a incluir 12 propriedades e oito carros. A Receita Federal chilena também iniciou uma investigação das finanças de Durán, líder da Catedral Evangélica desde 2003 e bispo da Primera Iglesia Metodista Pentecostal entre 2011 e 2019, para analisar a existência de possíveis crimes tributários.

A Unidade de Análise Financeira (UAF) do Ministério da Fazenda identificou que o líder religioso havia depositado grandes quantias de dinheiro em espécie em sua conta bancária entre 2007 e 2018, incluindo 1,73 bilhões de pesos chilenos (cerca de US$ 2,6 milhões na época) entre 2014 e 2018, segundo um documento confidencial que é parte da investigação da Procuradoria e foi citado pelo jornal chileno La Tercera. A publicação determinou também, ao analisar as transações das contas de Durán, que, entre os 159 beneficiários, figuravam seus dois filhos. Um deles, o atual deputado chileno Eduardo Durán Salinas, teria recebido 269 milhões de pesos (cerca de US$ 400 mil na época), segundo o mesmo documento.

A reportagem questionou o deputado Durán Salinas se ele havia recebido dinheiro de seu pai, mas não obteve resposta. Também contactamos o advogado do bispo Durán Castro, mas este afirmou que já não o representa, não tem relação com seu antigo cliente e não sabe quem assumiu sua defesa.

Durán disse à mídia que não falará sobre o caso até que se encerre a investigação. “Calculo que recebo ao mês aproximadamente 35 milhões [de pesos chilenos, o que equivale a cerca de US$ 52 mil da época] em dízimos, sobrando no fim das contas uns 28 ou 29 milhões mensais [entre US$ 42 e US$ 43 mil] à minha disposição”, foi sua explicação aos procuradores em janeiro de 2019, acrescentando que ele ajudava seu filho com 4,2 milhões (uns US$ 6.300 dólares) por mês.

Além disso, um banco chileno alertou a ocorrência de transferências inabituais de dinheiro de e para os Estados Unidos em contas bancárias relacionadas ao bispo, durante os meses em que negociava a fusão de sua congregação com a International Pentecostal Holiness Church, dos Estados Unidos, segundo reportou o veículo investigativo chileno Ciper.

O bispo Durán, destituído de seu cargo na Catedral Evangélica em maio de 2019 e aliado político de Sebastián Piñera, ainda não foi formalmente acusado pelo Ministério Público. Isso significa que o processo continua na etapa preliminar de investigação.

Em Trinidad e Tobago, no último 31 de dezembro, a polícia confiscou 29 caixas com notas de US$ 100 do país (equivalentes a US$ 4,1 milhões) do pastor Vinworth Dayal, que pregava na igreja Third Exodus Assembly, em Longdenville. O pastor queria trocar antigas notas de papel pelas novas notas de polímero, pois acabaria logo o prazo dado pelo Ministério de Segurança Nacional antes de tirar o papel-moeda de circulação a partir de 2020, como forma de evitar a lavagem e a falsificação de dinheiro.

Vinworth Dayal pregando no Youtube

O pastor Dayal afirmava ser inocente. Em uma carta ao Banco Central datada dois dias antes do depósito, seu advogado argumentou que as caixas continham “oferendas voluntárias para uso pessoal e em benefício dos membros da congregação” acumuladas durante 19 anos. A Justiça deve decidir se Dayal diz a verdade. 

Outros importantes líderes religiosos do país expressaram preocupação com o incidente, segundo reportagem do Trinidad & Tobago Guardian. O pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia Clive Dottin disse que tais ações poderiam levar a “um enfraquecimento da fé na religião” e colocar sob suspeita igrejas que administram bem suas finanças. E o arcebispo Charles Jason Gordon, da Igreja Católica, se disse preocupado com o pastor estar, desde o início, “usando [o dinheiro] para o ministério do povo e de Deus”.

Na Colômbia, a Procuradoria-Geral da Nação investiga há vários anos María Luisa Piraquive e sua Iglesia de Dios Ministerial de Jesucristo Internacional (IDMJI) – que conta com fiéis em 46 países – por movimentação financeira suspeita e outras denúncias. El Tiempo, nosso parceiro no país, enviou uma série de perguntas aos advogados da líder religiosa, que informaram que só poderiam responder nos próximos dias. Esta colaboração jornalística decidiu, com El Tiempo, esperar a publicação dessa parte da investigação até que a igreja e sua líder enviem sua versão dos fatos.

Como a reportagem mostrou, muitos desses casos nem sequer chegaram a resultar em acusações formais diante de um juiz. São apenas investigações preliminares, que às vezes se estendem por anos, mesmo nos casos de igrejas e líderes muito conhecidos em seus países e que somam milhares de fiéis.

“A maioria dos pastores de megaigrejas são celebridades; são reconhecidos em todos os lugares a que vão. Mas essa mesma condição de celebridades tende a isolá-los”, afirma Warren Cole Smith, CEO da Ministry Watch, uma organização evangélica independente sem fins lucrativos baseada nos Estados Unidos. “As estruturas legais e financeiras dessas igrejas também tendem a abafar os esforços de prestação de contas.”

Segundo a procuradora guatemalteca especializada em lavagem de dinheiro Sara Sandoval, as investigações sobre possível lavagem de dinheiro por meio de igrejas, mesmo quando ocorrem, raramente dão fruto. O dinheiro é muito difícil de rastrear, afirma. Existem exigências como ter que emitir um recibo para cada doação com a identidade do doador, mas essas medidas foram criadas recentemente e a autoridade de impostos não fiscaliza o cumprimento. Como não pagam impostos, supervisionar as igrejas não é prioridade da entidade fiscal. 

“Se uma igreja recebe uma doação de US$ 100 mil e a deposita em suas contas e nos diz que é uma doação, mas que não sabem de quem porque a pessoa não se identificou, como rastreamos?”, questiona.

AGÊNCIA PÚBLICA