Não chame bolsonaristas de gado, diz Hamilton Carvalho

Ataques a eles não funcionam

Elogiar é bem mais produtivo

Vamos falar do impeachment de Bolsonaro? Para isso acontecer, no cenário atual, parece ser necessário que uma parcela significativa dos brasileiros que ainda o apoiam mudem de ideia.

Sabe o erro que muitos cometem? Chamar essas pessoas de gado, ironizá-las ou, ingenuidades das ingenuidades, esfregar “fatos” no focinho, digo, no nariz delas. Entenda que, independentemente de orientação política, somos todos o que a ciência chama de realistas ingênuos.

Isto é, imaginamos que enxergamos a realidade como ela é, objetivamente, e acreditamos que quem não a enxerga as coisas da mesma maneira só pode ser burro, enviesado ou mal-informado. “Fatos” não convencem ninguém.

Além disso, como não canso de ressaltar, as evidências mostram que, em fenômenos de culto a personalidades, o fracasso é mais persuasivo do que o sucesso. É paradoxal, mas os resultados ruins aumentam a dissonância cognitiva e, consequentemente, a pressão por consistência interna entre comportamento (o voto, lá atrás) e o apoio atual. Ninguém gosta de ser visto como uma pessoa que toma decisões ruins em contextos sociais tão visíveis como o eleitoral.

Reconhecer o erro por ter digitado 17? É mais fácil racionalizar as barbaridades do presidente, especialmente quando há grupos sociais (cujos integrantes provavelmente sofrem as mesmas pressões interiores) reforçando o coro.

Sim, o grupo que berra “mito” já tinha sido desidratado com a saída de Moro e a perda de alguns endossos de primeira hora. Mas os efeitos foram menores do que se imaginava.

Por outro lado, não se sabe ainda se o efeito combinado da falta de vacinas, a aliança com o centrão e a economia na lama será suficiente para implodir o que resta de apoio ao presidente em 2021. Talvez seja, talvez não.

Por isso, quem sonha com o impeachment precisa fazer a hora. Vou sugerir mais uma estratégia que vem do Godzilla da persuasão, Robert Cialdini. Trata-se, em resumo, de oferecer uma saída honrosa para quem continua se identificando como bolsonarista.

Sair desmoralizado, por baixo, é algo extremamente aversivo em várias culturas. Vergonha é uma emoção universal e é ativada quando “perdemos a face”, para traduzir literalmente a conhecida expressão to lose face.

Manter a “face”, não se sentir humilhado, é, assim, um objetivo umbilicalmente ligado ao nosso ego e reputação. É uma das diversas alavancas que precisam ser bem movimentadas em uma negociação, por exemplo, ou na gestão da discordância em grupos sociais eficazes.

Bolsonaristas, como outros grupos identitários, naturalmente tendem a reagir de forma visceral ao que percebem como tentativas duras de convencimento, que colocam em xeque sua visão de mundo. Ao se sentirem atacadas ou ridicularizadas, essas pessoas apenas redobram o comprometimento. Não funciona.

Segura aí, porque agora vem a parte que muita gente não vai gostar: o jeito mais produtivo de oferecer uma saída honrosa aos adoradores da cloroquina é elogiar (sim, eu sei que é difícil) sua decisão lá atrás, descrevendo suas bases como corretas e aceitáveis –a luta contra a corrupção, contra um sistema político podre etc.

Ninguém lá atrás, prossegue a narrativa, tinha condições de prever as consequências do que viria a ser um governo absolutamente disfuncional no meio de um caos mortífero.

Será que esses eleitores teriam escolhido um negacionista de pandemia se soubessem que a maior delas em 100 anos estava para estourar e que o Brasil sangraria muito mais e por muito mais tempo do que o necessário? Ou alguém que não tardaria a dar os braços ao centrão?

Em outras palavras, apontar que a escolha feita era a correta, dadas as informações disponíveis à época, pode ajudar esse público a se livrar honrosamente do comprometimento com o bolsonarismo, ao mesmo tempo em que lhes dá o álibi necessário para aceitar a boia de salvação do impeachment, que hoje já atrai aqueles arrependidos que juram ter votado no Amoêdo.

Uma narrativa acolhedora evita, enfim, a dolorosa perda de reputação temida por quem desconfia que fez besteira e inativa, de quebra, o sentimento de inconsistência interna que pode vir com a mudança de posição.

Isso pode fazer mais pelo impeachment hoje do que qualquer carreata.

Para quem leu minha coluna sobre a defesa veneno-parasita e sentiu falta de alguns exemplos do mundo político, é só lembrar como Donald Trump liquidou seus adversários em sua primeira eleição – carimbando características pessoais ridículas impossíveis de descolar ou “desver”.

Assim, entre muitas outras vítimas, Jeb Bush, que parecia um cara pouco vibrante e foi acusado de ter baixa testosterona, virou low energy Jeb e o senador Ted Cruz, conhecido por declarações ambíguas, ganhou um lyin’ (mentindo) como prenome.

Tem método na coisa, que tem sido copiada por aqui. Para terminar com um exemplo doméstico, se eu fosse o Doria, tratava de mudar logo seu guarda-roupa…

PODER 360