OPINIÃO: Pocay gosta mesmo de quem o bajule/Debate SCRP

Ao desrespeitar a imprensa séria, prefeito mostra seu lado mimado

André Fleury Moraes
Da Redação

Caiu como uma bomba a denúncia publicada pelo DEBATE contra o prefeito Lucas Pocay, seu pai e outros aliados políticos. Não seria diferente. A verdade é que todo agente público odeia ter seu nome envolvido em escândalos.

No sábado, quando o jornal ligou para o prefeito para ouvir sua versão, o prefeito deu ares desesperadores. Seu assessor, Felipe Chamorro, disse que o DEBATE precisava “ter cautela para publicar o caso, já que envolvia vários nomes”. Como se não tivéssemos.

Às 19h44, a assessoria do prefeito enviou nota ao DEBATE negando quaisquer irregularidades no relacionamento do chefe do Executivo e os outros acusados com o empresário Ricardo Simões — autor da denúncia. Às 20h36, uma outra nota chegou ao jornal. Desta vez, Pocay disse que não tem vínculo algum com o empresário.

Pocay não dormiu naquela noite. Encaminhou a apoiadores, às 3h da madrugada de domingo e via WhatsApp, uma nota em que se disse cansado de “tanta fake news e calúnias”. Além dos apoiadores, também encaminhou ao repórter. Teria sido uma ameaça?

Um pouco mais tarde, Chamorro ligou novamente para o DEBATE e pediu cópia do depoimento que embasou a reportagem do jornal. A intenção, ao que se sugere, seria antecipar a defesa dos acusados. E o DEBATE , por dever ético, não enviou.

Mas o prefeito sentiu. Acostumado à imprensa chapa-branca, para quem destina dinheiro público frequentemente a título de publicidade, Pocay não reagiu bem ao jornalismo independente do DEBATE.

Era segunda-feira, 18. Em nota à imprensa, o prefeito garantiu ter um áudio de uma reunião que, segundo ele, desmente as acusações do empresário. Sem entregar a gravação, Pocay exigiu que o DEBATE publicasse a existência do áudio. “Espero que o jornal tenha o mínimo de ética e publique a existência do áudio”, disse. Como se ele ditasse aquilo que o jornal publica. Não somos seus assessores, prefeito.

O DEBATE pediu o suposto arquivo ao prefeito, que se negou a entregar. Segundo ele, o áudio deve ser entregue à polícia num primeiro momento para que seja considerada uma prova válida. Uma aberração argumentativa. Lima Barreto diria que ele falou javanês. Isso não existe. Prova é prova — vazada antes ou não.

Não bastasse, em ofício enviado à Câmara, Pocay classificou a matéria do DEBATE como algo “de cunho maldoso, eleitoreiro e calunioso”. Uma vitimização sem precedentes. Publicar uma denúncia como esta é obrigação de um jornal sério — aos quais Pocay tem aversão.

Ele gosta mesmo é de jornal que o intitule “o melhor prefeito da história de Ourinhos”. Nestes casos, até distribui exemplares na prefeitura — segundo denúncia do deputado Capitão Augusto. Ao desrespeitar a imprensa séria, Pocay mostra seu lado mimado. Um garotinho que não gosta de ser contrariado. Mas Orwell já dizia: jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que seja publicado.

Aparentemente, no entanto, há gente séria ao redor do prefeito. Felipe Chamorro, da assessoria de Pocay, disse ao DEBATE, ainda no domingo, que o jornal estava certo ao publicar o caso. “Vocês receberam a denúncia e fizeram a obrigação de vocês”. Sim.

  • Publicado na edição impressa de 31 de maio de 2020

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