Votos e bens de Bolsonaro e Flávio avançaram junto com milícias

Rio das Pedras, Queiroz, “capitão Adriano” e matadores de aluguel presos esta semana compõem essa história

A polícia civil do Rio prendeu nesta terça-feira 30, na Operação Tânatos, dois irmãos acusados de um assassinato em março de 2018, Leandro (“Mad”) e Leonardo (“Tonhão”) Gouvêa da Silva. A dupla integra, diz o Ministério Público (MP) do RIo, um grupo de “ligação estreita” com o ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, miliciano morto em fevereiro na Bahia, e seu Escritório do Crime.

Nóbrega era o alvo principal da Operação Intocáveis, realizada em janeiro de 2019 contra a milícia mais antiga do Rio, a de Rio das Pedras, comunidade na zona oeste da capital. Com a eleição de um miliciano da favela vereador em 2004, as milícias avançaram sem parar. E os votos e bens de Jair e Flávio Bolsonaro, donos de residências próximas da área miliciana, também.

“A partir de 2004, após a eleição de Nadinho, iniciou-se a grande expansão das milícias”, diz o estudo “Favelas sob o controle das milícias no Rio de Janeiro”, das pesquisadoras Alba Zaluar e Isabel Siqueira Conceição “A tomada dessas novas áreas ocorria através de conflitos armados entre milicianos e traficantes locais. Não raramente, a investida da milícia era precedida por incursões policiais, que enfraqueciam os traficantes.”

Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho, era de Rio das Pedras e elegeu-se pelo DEM, o partido do então prefeito do Rio, Cesar Maia. Naquele ano de 2004, as milícias controlavam seis comunidades do Rio. Em 2007, já eram 92. Em 2014, 146. São dados divulgados no passado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio.

Em 2002, pouco antes da marcha miliciana, Flávio Bolsonaro elegeu-se deputado estadual no Rio pela primeira vez, enquanto Jair conquistava o quarto mandato de deputado federal. O filho teve 31 mil votos e o pai, 88 mil. Na eleição seguinte, em 2006, já os milicianos a avançar, mudou só um pouco: 43 mil e 120 mil para cada um. O patrimônio somado dos dois era de 818 mil reais.

Uma década depois, quando as milícias já controlavam 147 comunidades, pai e filho tinham muito mais patrimônio eleitoral e financeiro. Flávio: 160 mi votos para deputado estadual em 2014 e 1,4 milhão de reais em bens ao concorrer a prefeito em 2016. Jair: 464 mil votos em 2014, o deputado federal campeão do Rio na eleição, e 2 milhões de reais em bens.

Sérgio Cabral assumiu o governo do Rio em janeiro de 2007 com a promessa de combater milícias. Flávio estava no início do segundo mandato na Assembleia Legislativa. Em 7 de fevereiro, ele foi à tribuna: “Não se pode simplesmente estigmatizar as milícias, em especial os policiais”. Dizia não se importar de pagar para ter proteção e arrematou: “Podemos condenar tais policiais que estão trabalhando ali para tentar expurgar do seio de sua família criminosos que não têm recuperação?”.

Duas semanas após o discurso, foi assassinado o policial civil que chefiava a milícia de Rio das Pedras, Félix dos Santos Tostes. O mandante teria sido o vereador Nadinho, conforme a CPI das Milícias, que funcionou na Assembleia em 2008. O motivo do crime teria sido abrir caminho para controlar a Associação de Moradores de Rio das Pedras, uma máquina de votos.

“É muito comum esse controle de grupos criminosos sobre movimentos sociais vinculados à população moradora”, diz o sociólogo José Claudio Souza Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, estudioso de milícias desde 1993. “É determinante o sucesso e a expansão dos negócios do miliciano que ele deixe de ser apenas um assassino e acople a imagem de benfeitor.”

A Associação de Moradores de Rio das Pedras está a 13 km do condomínio de luxo na Barra da Tijuca onde Jair Bolsonaro tem casa. Flávio possui apartamento em prédio ao lado do pai. A casa de Jair foi declarada pela primeira vez à Justiça Eleitoral em 2014, embora tenha sido comprada em 2009, segundo a Folha. O apartamento do filho surge na sua lista eleitoral de bens em 2016.

Na eleição de 2018, o atual governador do Rio, Wilson Witzel, fez campanha colado em Flávio e Jair Bolsonaro. Era azarão. Na véspera do primeiro turno, tinha 10% nas pesquisas. Naquele dia, milicianos fizeram correr uma ordem em Rio das Pedras. Era para votar no número 20. Ninguém ali sabia de quem era – era o de Witzel. Segundo um morador, os milicianos avisaram que iam conferir a votação. Se o 20 não fosse bem, todo mundo iria pagar. Witzel saiu das urnas com 39%.

Nadinho, que foi assassinado em 2009, queria o comando da Associação de Moradores, ao mandar matar Tostes. Mas não conseguiu. Em depoimento à CPI das Milícias, em agosto de 2008, um delegado que investigava milícias à época, Pedro Paulo Pinho, explicou o que deu errado no plano.

“Com a morte do Félix, Dalmir – que é PM -, Dalcemir, que é o irmão dele, e vários outros lá dentro (Beto Bomba, Major Dilo, oficial da ativa da PM e tal) não permitiram que o Nadinho assumisse Rio das Pedras, porque eles eram fiéis ao Félix e sabiam quem tinha matado o Félix, a mando de quem o Félix foi morto. Então, eles não permitiram. Isolaram o Nadinho num canto e assumiram o comando do grupo em Rio das Pedras.”

“Beto Bomba” é Jorge Alberto Moretti. Tornou-se presidente da Associação de Moradores de Rio das Pedras após a morte de Tostes. Era parceiro de Adriano da Nóbrega, o miliciano morto em fevereiro passado. Nóbrega estava foragido desde janeiro de 2019, denunciado pela Operação Intocáveis por quadrilha, receptação de carga roubada, extorsão e comércio de imóveis em áreas griladas, entre outras coisas. Bomba era um dos outros 12 acusados.

Segundo o MP, a associação de moradores é “onde se consolidam as transações de compra e venda dos imóveis construídos ilegalmente, bem como são manipulados os documentos necessários às operações ilícitas realizadas”. A associação, repita-se, fica a 13 km das residências de Jair e Flávio Bolsonaro na Barra da Tijuca.

Uma esposa, Danielle Mendonça, e a mãe, Raimunda Veras Magalhães, do “capitão Adriano” foram contratadas pelo gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio. Segundo o MP, elas eram laranjas: seus nomes e contas bancárias prestavam-se ao esquema das “rachadinhas”, aquela prática de parlamentar embolsar salário de funcionários.

As duas foram contratadas depois da entrada no gabinete de Flávio do ex-PM Fabricio Queiroz, preso em 18 de junho passado no caso das “rachadinhas”. Nóbrega também tinha sido PM. Ele e Queiroz conheceram-se em 2003, no 18o Batalhão da Polícia Militar, situado em Jacarepaguá, zona oeste do Rio. A 16 km da casa de Jair Bolsonaro.

“Queiroz foi colocado no gabinete de Flávio pelo Jair. É uma pessoa que articulava as campanhas de toda a família, principalmente em áreas de milícia”, disse o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), em 22 de junho. “Meu soldado”, afirmou Bolsonaro sobre Queiroz em outubro de 2019. “Um cara correto, trabalhador, dando sangue por aquilo que acredita”, declarou Flávio em maio passado.

Freixo foi o proponente e o relator da CPI das Milícias, de 2008. Era deputado estadual no Rio, na época. O PM Dalmir Pereira Barbosa foi apontado pelo delegado Pinho à CPI como parceiro de Beto Bomba, e este era, por sua vez, parceiro de Adriano da Nóbrega. Barbosa foi preso na segunda fase da Operação Intocáveis, em janeiro de 2020.

Na época da CPIde 2008, Jair Bolsonaro era deputado federal e, em entrevista à BBC, saiu em defesa das milícias. “O governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas. E, talvez, no futuro, deveria legalizá-las”. Para ele, Nóbrega, o ídolo dos matadores de aluguel “Mad” e “Tonhão”, o parceiro de “Beto Bomba”, era um “oficial brilhante” da PM.

O advogado do “oficial brilhante” era o mesmo que agora atende Fabricio Queiroz desde a prisão do ex-funcionário de Flávio. É Paulo Emilio Catta Preta. Que por sua vez tinha sido defensor da ex-mulher do agora ex-advogado de Flávio, Frederick Wassef.

Não há coincidências nessa história.

CARTA CAPITAL